Mas, qual cidade?

10 maio

Fala-se muito das relações sociais (e desiguais) das pessoas de forma abstrata, deslocada da concretude do mundo, como se de fato, os casos que nos chegam estivessem enclausurados na jurisprudência do STF. Mas todas essas relações se objetivam na cidade. 

Uma unidade formal – em nosso caso, Curitiba – é um espaço dividido. Não se trata de afirmar um axioma tal “a riqueza é distribuída de forma desigual”. Quando falamos em cidade, nos vem logo à mente a imagem ideal de um grande centro: cultura, desenvolvimento, ruas largas, muitos carros, entretenimento, praças, monumentos, comércio. O centro de Curitiba, realmente, não nega esta imagem. Mas, o centro nega seu entorno. Assim, quando falamos em cidade, nos deparamos com o problema do acesso. A efervescência dos festivais está geograficamente localizada; as belas praças não estão presentes em bairros longínquos; os monumentos não representam todos que habitam e construíram a cidade, mas a história daqueles que formularam a recortada cidade modelo. 

Sobre essa cidade dividida pelo abismo entre centro e periferia incide uma política de segurança pública altamente seletiva, que opõe “cidadãos” e “inimigos”. Ao passo que as políticas higienistas e sanitaristas tentam insulflar uma “nova vida” ao centro “decadente”, as cercanias dos bairros nobres nunca foram tão fortemente vigiladas pelo poder policial. A Curitiba da lustrosa Rua Riachuelo, é a mesma Curitiba do violento Sítio Cercado.

Para o Estado brasileiro a resolução das desigualdades de classe é simples, no bordão do Requião: “polícia e cacete”. É mais fácil instalar uma UPS no Uberaba que realizar políticas públicas inclusivas. “Acelerem o crescimento!” – disseram os lulistas; e lá vai o povo correr atrás migalhas do PAC; da Copa e das Olimpíadas. Saímos do Estado de Direito para o Estado Vale Tudo! Vale cacete, vale porrada, vale guerra pra sustentar uma Curitiba que já sorri amarelo às violações de direitos humanos nas UPS. A nós, iniciados no mundo jurídico, vale lembrar que tudo isto ocorre à sombra da altaneira Lei. Lei de Exceção, pros íntimos: Lei Geral da Copa. O mesmo concreto que ergue a Arena da Baixada, soterra a periferia de Curitiba.

Este ano acontece o II Seminário de Direitos Humanos da Federação Nacional dos Estudantes- FENED, desta vez com o tema “Modelo de Desenvolvimento e Tratamento Penal da Miséria”. O evento acontecerá nos dias 18, 19 e 20 deste mês no Rio de Janeiro. O Coletivo Maio entende que a participação dos estudantes no espaço do movimento estudantil de área é de suma importância mas, como não são todos que poderão participar do evento, viemos convidá-l@s para um debate prévio ao seminário sobre algo que perpassa também nossa realidade local. Optamos por operar um recorte no assunto e trabalhar mais a fundo o tema cidade. 

*Texto produzido para o panfleto de divulgação do evento.

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